Eu, a Dívida

Gostaria de me apresentar a vós. Durante muitos anos fui apenas um dos vários substantivos femininos que existem. Felizmente, poucos conheciam-me. Também, na verdade, estava mais magra na altura.

Hoje, muitos são aqueles que ouvem falar de mim. Ora nas capas dos jornais ora nas televisões sou presença assídua. Adoro aparecer! Meti-me entre marido e mulher, meti-me onde não era chamada e meti-me com que não devia, mas passou a dever. Fiz com que se desfocassem de tudo o que realmente importa para que pudésseis subjugar-se aos meus encantos.

Seja eu externa, soberana, pública ou privada, não importa, tenho de ser paga. Sou o vosso direito, dever, obrigação e objectivo de vida. Só ainda não sou o vosso sonho, espero eu. Sou pegajosa, peganhenta, enfim, apego-me às pessoas. Uns dizem que sou pagável e inegociável, outros dizem que sou impagável e negociável. Conhecendo-me como conheço, vejo-me mais como sendo inexistente e ilusória.

Se não me pagarem será o fim. E se me pagarem será o quê? O princípio, meio e fim deste meu novo enredo são: ao princípio fizeram-vos acreditar que me iriam pagar, depois, lentamente, foram-se apercebendo de que não há meio de me pagar e no fim vão concluir que esta história mais valia não ter começado.

Existem algumas coisas que não entendo. Quem são os meus responsáveis? Quem é que permitiu que eu aparecesse? Enfim, em caso de dúvida, pagam todos. Sempre gostei da velha máxima: “por um, pagam todos”.

Numa época em que o gourmet é moda, eu própria me considero agourmezada. Ou não serei eu, em jeito de gourmet, uma outra forma de confeccionar Submissos? Mas calma, não pensem que sou só eu. Há mais! As minhas amigas Escravatura e Exploração servem agora no seu estaminé: Estágios Não Remunerados. A Pobreza, essa virou-se para o negócio da Austeridade. A Selvajaria abriu uma casa que comercializa Competitividade. Hamburguerias, Gins e Sumos Detox… Gourmet? Nem pensar! Tanto negócio só é possível graças ao fecho da Justiça para balanço.

Eu sou legal. E muito! Mas por favor, não questionem a minha legitimidade se faz favor. Se não ainda há aí um reboliço daqueles.

Espero que continuem a disfrutar da minha presença nos próximos anos. Tem sido um prazer! Até breve devedores e credores.

Um beijo,

Dívida

P.S – Os Mercados mandam um abraço.

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