Obrigado

Não pedi nada, simplesmente aconteceu. Entre acasos planeados e vontades persistentes, uma nova vida espreitava. Directamente do bem-bom para um sítio que, anos mais tarde, evitaria ao máximo, eis que surjo prontinho para dar o ar da minha graça. Pela primeira e única vez, o meu choro foi motivo de satisfação. Fiz o que tinha a fazer, pelo menos é isso que consta.
Fui obrigado a nascer, e ainda bem.
Cresci livre de amarras, ora não fosse filho de quem sou. Dum lado a minha Mãe, empenhada em libertar as pessoas da doença e do mal-estar. Do outro o meu Pai, comprometido em democratizar o pensamento e a justiça. Não me restavam muitas hipóteses, na verdade. Era uma esponja que absorvia com os olhos e tentava filtrar com o coração. Diziam-me que a boa educação cabia em todo o lado. Eu desconfiava, pois achava que existiam sítios demasiado apertados. Agora entendo que ela é algo que carregamos connosco e, por isso, todos os sítios onde nós coubermos, ela entrará também. Por acreditarem que o conhecimento é o maior inimigo da ignorância, os meus pais fizeram o favor de me desviar ao máximo desse sítio com pouca luminosidade. Felizmente, o medo do escuro ainda não me passou. Mostraram-me o que convinha saber para que pudesse ter a minha opinião. Cresci assim, como que um alfaiate a ajustar as medidas da vida que melhor me servia. Não me batizaram. Afinal de contas, com aquela idade, eles não tinham forma de saber se era algo que eu queria ou não. Bom senso. Os limites, fui eu que os escolhi. “Filho, tu é que sabes”.
Fui obrigado a ser livre, e ainda bem.
Tive vários amores, porém apenas um subsistiu: o próprio. Muito por culpa vossa. Ser fiel a quem me fui tornando era mandatório. Nunca pedir desculpas por ser quem sou. Muitos não vão entender e alguns vão duvidar. Inclusive já me “aconselharam” a mudar. “Não podes ser assim”. Nunca precisei ser desconfiado para não cair nessa. Não pises nem sejas pisado. Os degraus dos outros não te assentam por isso mesmo, são dos outros. Pediram-me que não me adaptasse a mudanças incoerentes. Sê justo, verdadeiro e não te esqueças dos outros. Não tive grandes alternativa. Só me restou ser eu mesmo.
Fui obrigado a ser eu próprio, e ainda bem.

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