Vitória

A vida boa, agora velha, ficou para trás. As festas no cabelo da minha Leonor perderam-se algures nos vales dos calos das mãos. Entre o lembrar e o esquecer, ainda não descobri qual provoca menos dor. A caixa de cartão espalmada tornou-se um colchão demasiado ortopédico para as minhas costas. A bebida vai servindo para afugentar a mágoa enquanto os candeeiros ofuscam as estrelas. O relento arrepia e escurece-me a alma. Tomar duche deixou de ser opção para se tornar obrigação, de cada vez que chove. Pelo menos ajuda a resolver esta maldita comichão no nariz. Sempre fui feminina, algures entre o pintada e o arranjada. A rua deu-me os buracos na camisola e os pelos compridos, agora comprimidos pelas meias de vidro que nunca deixei de usar.
Acreditem, o pior de tudo é estar com abrigo, mas sem-lar. Sobreviver na rua dói. Os olhares preconceituosos são como lâminas que dilaceram o pouco de auto-estima que ainda me resta. As pessoas passam e eu fico, de mão estendida, à espera que caia algo. Nunca soube como vim aqui parar e agora nem sei por onde começar. Quem me dera que este fosse um beco com saída. Fugir, voltar a trás e recomeçar. Ser, novamente, humano. Comer de novo um guarda-chuva de chocolate com a minha menina. Sentir gratidão por estar viva. Já caí sete vezes, mas ainda só me levantei seis. Estou em dívida para comigo.

Desculpem o desabafo, mas é a única forma de contornar estes dias em que só me apetece
mudar de nome para “Derrota”.

Anúncios

2 thoughts on “Vitória

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

w

Connecting to %s