Não mata, mas dói

Preciso da vossa ajuda. É importante, a sério. Tenho uma dúvida que preenche todos os meus poros e está-me a entupir a esperança. Não, não é daquelas que se resolve com um simples “google it”. É um bocadinho mais elaborada. Ou talvez não. Como ser humano que sou, posso estar somente a ser complicado. A minha questão está relacionada com a consistência da vida. Para além do “vai-se andando”, cresci a ouvir que a vida era dura, que tinha de doer. Quanto a vocês não sei, mas para quem está a viver pela primeira vez, como é o meu caso, não será prematuro partir logo do princípio que grande parte desta jornada irá ser um martírio?

Quem é que inventou que a vida tinha de ser assim tão dura que nem a própria utopia conseguiria penetrá-la? Gostava mesmo de conhecer essa pessoa. Por momentos, cheguei a desconfiar da minha avó, autora do êxito “cá o encontrámos, cá o havemos de deixar”. Mas não, não foi ela. Isto já vem lá de trás, algures entre os dinossauros e um “-ítico” qualquer. Tendo em conta a ancestralidade desta lei, é óbvio que o criador já nem pode estar vivo. Não importa. Quero um nome, um rosto, uma ossada. Alguém a quem possa apontar o dedo. Ou talvez não seja preciso. Se calhar os autores deste esconderijo sejamos cada um de nós, não acham?

A vida terá, certamente, momentos de tristeza e situações inglórias. Algures ao longo dos anos, iremos bater no fundo e querer desistir de tudo. Vamos chorar pelos que partiram e gritar por termos cá ficado ainda mais sós. Podemos não a viver, mas, seguramente, vamos assistir a muita miséria. Contudo, não é (só) isso que me preocupa. Assustam-me a falta de dúvidas e a extinção do brilho nos olhos. Arrepia-me o desaparecimento da reflexão como meio de evolução. Fico apavorado cada vez que ouço “a vida é mesmo assim”. “Assim como?”, pergunto eu sempre, num tom indignado. Até agora nunca ninguém me soube responder. Será que ando com azar ou será que os argumentos ainda não chegaram? Estou mais inclinado para a segunda.

Vamos andando em vez de correndo. Atrás dos fracassos, muitas vezes, esconde-se um sucesso inimaginável. Porém, esperamos sempre o pior. Pessimistas crónicos ou meros gestores de expectativas? Não sei, desta vez estou mais inclinado para a primeira. A vida mais aguentada do que vivida não deveria servir. Achamos normais completos absurdos. Abraçamos a tristeza e envergonhamo-nos da alegria. Expomos os nossos problemas com orgulho e encobrimos as vitórias. Abdicamos do nosso potencial porque acreditamos, convictamente, que não somos ninguém. Alguém consegue entender isto? Nadamos tanto e só quando os braços desistem de empurrar a vida para a frente é que percebemos que a flutuar chegamos mais longe. A árvore não luta para crescer. A onda não pede para elevar a sua crista. A nuvem não explica a sua forma. A vida flui, sem esforço. Porque haveremos de ser a exceção?

Gostamos de fazer acontecer, mas não deixamos que aconteça. O impossível, muitas vezes, confunde-se com o medo de fracassar. Fantasiar é aceitável, acreditar que se consegue realizar já é gozar com a ingenuidade. Andamos por aí a dizer que o sonho comanda a vida, mas depois, cobardemente, desobedecemos. Preferimos aceitar ordens do que não nos leva a lado nenhum pois “tem de ser”. A “vida é dura” porque “tem de ser” – que bela dupla. Na verdade, só seguimos estas espécies de leis universais se nós quisermos que assim seja. A vontade própria deveria ser isso mesmo, própria.

O medo é tanto que ninguém se perde, todos se conformam. Mas não, não tem de ser assim. Ousemos perder-nos as vezes que forem precisas até que nos encontremos. Até que seja claro o que é nosso e o que é simplesmente emprestado. Até que entendamos que a vida, em grande parte, é aquilo que fizermos dela. “A vida é dura porque sim”. “Porque sim” não é resposta, já dizia a minha mãe. Porquê? Porque não. Irritante, não é? Olhem, “é a vida”.

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