Às portas da vida

Este fim de semana fui visitar o Júlio ao hospital. Nunca gostei de atravessar aqueles corredores pouco aconchegantes. O cheiro a desinfetado corrói-me as narinas e dilata-me os pulmões. As batas brancas deambulam em passo acelerado e o profissionalismo que se sobrepõe às emoções deixa-me inquieto. Esconde-se a dor atrás dum analgésico e a programação televisiva nunca coincide com o ambiente transmitido pelos olhares. A respiração dos residentes deixa-me ofegante. Tento passar despercebido e alhear-me do sofrimento que me rodeia, mas quando o coração já viu pouco ou nada se pode fazer.

As memórias desfilam perante a retrospetiva na esperança de que nada tenha ficado por fazer. A frustração de não poder sair daquele colchão e mudar o que não faz sentido mistura-se com a dor que escorre pelos olhos. Parece que é preciso parar sem se poder mexer para querer sair porta fora e viver a vida que se podia ter vivido. Será que é necessária uma doença terminal para querermos dar início ao nosso esplendor? Será obrigatório não gostarmos daquilo que vemos ao espelho para começarmos a refletir? Será que é preciso um susto para perdermos o medo de viver?

Este fim de semana fui ao funeral do Júlio. O seu corpo chegou ao fim. Felizmente, nunca encontraremos almas cheias no vazio da morte. A vida é curta, mas o Júlio tratou de garantir que não fosse pequena.

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