Pouco barulho

Tantas vezes confundido com um vazio aterrorizante, o silêncio é uma oportunidade que, cada vez mais, tendemos a desperdiçar. Esbanjamos, diariamente, milhares de segundos a embriagar-nos com ruídos e distrações só para não termos de lidar com a única pessoa com quem iremos ter de viver até ao fim dos nossos dias: nós. Pode ser profundamente assustador parar para observar as emoções que deambulam no nosso interior. Podemos deparar-nos com sentimentos complexos e, até mesmo, perceber que temos andado iludidos a nosso respeito. Por outro lado, não será esta uma travessia obrigatória caso queiramos vislumbrar a nossa essência e assumir controlo de todo o
nosso potencial? Porque será que desistimos de ouvir o silêncio?

A nossa perceção de excelência tem andado distorcida. Vangloriamos quem trabalha muito, quem está sempre ocupado e quem é uma “máquina”. O “não fazer nada” foi
relegado para a divisão da preguiça, onde jogam os improdutivos juntamente com os calões. Subtilmente, foi-nos incutido que parar era sinónimo de estagnar e que o silêncio era o pior sítio para estacionarmos a nossa mente saltitante. A ansiedade é o nosso
estado natural enquanto a serenidade continua a ser algo estratosférico, apenas ao alcance daqueles senhores de trajes laranjas que passam os dias a não pensar em nada. E, no meio disto tudo, continuamos sem desvendar a nossa natureza. Há destinos em que o piloto-automático não consegue aterrar.

Já ninguém vai à casa de banho sem o telemóvel. Poucos são aqueles que abdicaram de ter uma banda sonora constantemente a debitar decibéis pelos auscultadores. A televisão, as séries, os stories do Instagram. Chamamos a tudo isto de entretenimento. Não podem existir tempos verdadeiramente mortos. Há que lhes dar vida nem que seja
com mais um voice no WhatsApp. No entanto, não serão todas estas ocupações, na verdade, distrações? O nosso plano de fuga é interminável. Fazemos de tudo para não acordar da anestesia e dar de caras com quem realmente somos. Um analgésico apenas encobre a dor, não elimina a ferida.

Quem não tem pavor do tédio? Uma espécie de tortura psicológica, como se nos tivéssemos a afogar numa piscina sem água. Fazemos de tudo para evitar ficar aborrecidos. O aborrecimento e o tédio são ambas as margens do rio do vazio. “O que
é que eu faço agora?”, era com esta pergunta que eu aborrecia a minha mãe quando era criança. A diferença, é que na altura, não dava para empurrar o problema para debaixo dum tablet. Também não dava para ver desenhos animados em loop até ficar hipnotizado. Tinha de inventar. É isso mesmo, o tédio aguça a criatividade. O vazio, à semelhança da folha em branco, pode assustar, mas, ao mesmo tempo, tem imenso espaço para estimularmos o nosso imaginário. Haverá forma mais genuína de despendermos o nosso tempo? Acredito que não.

Uma vez li que estamos melhor conectados quando não estamos ligados ao Wi-Fi. Passear longe do ruído artificial é uma das melhores formas de serenarmos e obtermos
a claridade que, consciente ou inconscientemente, todos almejamos. Existem respostas que não se podem obter nem no Google, nem num tutorial do YouTube. As grandes questões, aquelas que nos comem as unhas e levam o sono para longe, podem ser desfeitas se nos dispusermos a olhar para dentro. Tirar o pé do acelerador pode evitar
muitos acidentes. Parar pode fazer com que não caiamos do precipício. Não fazer acontecer pode ser a única forma de deixar que algo aconteça. Distanciarmo-nos pode ser a melhor forma de chegarmos mais perto.

Ouve o que o silêncio tem para te dizer. Mas atenção: ele fala baixinho.

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25 de Abril (nem) sempre

Sou um filho de Abril. Não do mês nem do ano, mas do Capitão. Sim, tenho o privilégio de descender de alguém que ousou escrever nas páginas da história de Portugal. Alguém que sonhou com uma sociedade mais livre e justa. Alguém que não se restringiu ao queixume, que tanto caracteriza a nossa gente, e arriscou pelo bem comum. Entregou-se de tal forma que chegou a estar preso. Pelos vistos, naquela altura, já era perigoso pensar de forma diferente. Porém, eu não estava lá. Àquela data, ainda faltavam 15 anos para eu soltar o meu primeiro choro. No entanto, crescer junto de uma das personagens do meu livro de história deu-me uma perspectiva nítida do que foi e do que poderia ter sido aquele fim de Abril.

Estamos agora em 2018 e, por esta altura, cerca de 52% dos portugueses já nasceram no pós 25 de Abril. Isto quer dizer que mais de metade de nós não faz a mínima ideia do que é viver num estado ditatorial. Pelos menos, em teoria deveria ser assim. Mas será que é mesmo? Não será esta democracia uma ditadura mais colorida? Quando a liberdade é muita…

Emma Goldman, escritora e activista lituana, afirmou que se votar fizesse alguma diferença seria ilegal. Atenção, isto não é nenhum apelo à abstenção nem ao voto em branco (mas podia ser). Contudo, se virmos bem, será que é o povo quem mais ordena quando apenas é chamado a participar de quatro em quatro anos? E, enquanto isso, há um outro “povo” que se expressa todos os dias anaforicamente nos meios de comunicação? Não me faz muito sentido. Quando saio à rua, já não encontro em cada esquina um amigo. Isto porque estão todos enclausurados num open space com a closed mouthpara não perderem o salário que lhes permite equilibrarem-se na corda da dignidade. Também já não encontro em cada rosto, igualdade. Ora, não fossem os 2,5 milhões de portugueses a viver abaixo do limiar de pobreza sem acesso a uma vida justa. Pelos vistos, continuam a comer tudo e a não deixar nada, mas desta vez de uma forma democrática. Será possível? Nem à sombra de uma azinheira me consigo pôr para refrescar as ideias, ora não tivessem ardido 506 mil hectares em Portugal só no ano passado. Responsáveis? Ninguém. Culpados? Todos.

De que nos serve ter liberdade de expressão se, por um lado, nos deixam falar, mas não deixam que ninguém nos oiça e, por outro lado, as opiniões dos comentadores se propagam à velocidade da ignorância? Serve de muito pouco, na minha opinião. A pior prisão continua a ser aquela em que não vemos os muros. “Se vivemos em democracia, para quê fazer uma revolução?” O pior inimigo continua a ser aquele cujo rosto não conhecemos. Desta vez, não temos nenhum Salazar nem Marcelo Caetano a quem possamos apontar a nossa ira reprimida. Estamos a jogar à cabra cega com os mercados, agências de rating e capitalismo. Andamos às voltas e ninguém sabe quem são, mas todos se vergam subservientemente. Somos livres de escolher de que forma somos explorados. Será esta a liberdade que conquistámos?

Há 44 anos, deu-se uma revolução política. Não foi suficiente. Enquanto cada um de nós não revolucionar a sua consciência, iremos continuar a saltar de regime em regime e, por sua vez, a ser encurralados entre a opressão e a mudança. Será que todos nós estamos dispostos a ser livres? Será que estamos aptos a ser responsáveis pelas nossas vidas? A culpa, antes de ser do sistema, é nossa. Provavelmente, muitos de nós, numa posição de poder, não faríamos diferente de quem lá está. E é aí, na minha opinião, que reside o problema. Todos somos cúmplices, ou por opção ou por omissão.

Infelizmente, Salgueiro Maia continua a ter razão. Continuam a existir os estados sociais, os corporativos e o estado a que chegámos. Partir dele depende mais de nós do que imaginamos.

Pai, conta comigo.

Não tenho tempo

As horas voam e os dias passam. A vida é curta e, talvez por isso, poucos são aqueles que conseguem que ela lhes sirva. Mas, pelos vistos, ainda há tempo. Sobra tempo que chegue para nos vangloriarmos por não o ter. Erguemos a nossa agenda ocupada na esperança de sentirmos que temos uma vida preenchida. Olhamos para o relógio e aceleramos o passo. Sentimos que o tempo passa a correr, mas nós, espremidos pelos ponteiros impiedosos, limitamo-nos andar. Que tempos são estes em que parece que o tempo não nos dá tempo? Será verdade?

Na minha opinião, existem dois tipos de mentirosos. O primeiro é aquele que engana os outros, contudo está consciente, não só da verdade, mas também da sua falta de honestidade. O segundo tipo, mais comum do que imaginamos, é aquele que, além de enganar os outros, consegue também enganar-se a si próprio. Muitos de nós, se nos observarmos com imparcialidade, chegaremos à triste conclusão de que somos mentirosos do tipo 2. “Não tenho tempo” — a mentira mais frequente desta maleita social. Muitas vezes disfarçada de “desculpa”, esta mentira à paisana visa desresponsabilizar-nos da nossa própria vida. É uma espécie de almofada onde encostamos a consciência e pensamos: “Até vivia como quero viver, mas não tenho tempo”. Que alívio.

Somos engenhosos. Ora não temos tempo, ora já o estamos a fazer. De autómatos a autónomos em menos de nada, será? Fabricamos tempo nos tempos que já morreram, já repararam? Fazemos tempo quando o estamos a gastar e, de repente, a falta de tempo deixou de ser uma preocupação. Se os tempos mortos já não estão entre nós é por nossa culpa. Fomos nós que não lhes soubemos dar vida e os enterramos na cova do marasmo. Preenchemos essas horas com tédio, vazio e aborrecimento. Provavelmente aconteceu o que acontece sempre. Não tivemos tempo para agarrar os tempos moribundos. Fazer o luto está fora de questão, ora não fossemos nós os “tempicidas”.

Mudam-se os tempos, escondem-se as vontades. Conservamos amizades em grupos de WhatsApp e deixamo-las suspensas algures entre o “já não nos vemos há tanto tempo” e o “havemos de combinar qualquer coisa”. Não fazemos tempo para os amigos e trocamos o “como estás?” por um estado do Facebook que nos vai pondo a par das novidades. Enquanto vamos deslizando pelo feed até a nossa impressão digital ficar desconfigurada, vamo-nos tornando extensões das nossas cadeiras do escritório. “Sedentários crónicos incapazes de zelar pelo seu bem-estar” — é este o diagnóstico. Queremos apps que façam abdominais por nós e youtubers que nos enfiem uma dieta elaborada pelos olhos. Sabemos tanto e fazemos tão pouco. É preciso um susto para que percamos o medo de viver? Até gostávamos de ser memoráveis, épicos e inigualáveis. Contudo, só arranjamos tempo para fazer história quando vamos ao Instagram. Vá lá, certamente somos capazes de fazer algo que dure mais do que 24h.

O tempo cura tudo, mas nunca mais chega a hora. É uma perda de tempo viver todos os dias de forma igual. Fazemos copy paste a cada ano da nossa existência e depois admiramo-nos de não lhes poder chamar de vida. Vamos acrescentando anos à idade, pensando que a quantidade pode sobrepor-se à qualidade. Jamais. Assistimos à mudança da hora, mas continuamos sem ver a hora de mudar. Porquê? O tempo voa e, enquanto não as abrirmos, nunca saberemos o quão grandes são as nossas asas.

Desvenda-te. No final de contas, tudo isto terá sido apenas um passatempo. Se foi bem ou mal passado, só depende da intensidade com que chamaste pela vida.

Às portas da vida

Este fim de semana fui visitar o Júlio ao hospital. Nunca gostei de atravessar aqueles corredores pouco aconchegantes. O cheiro a desinfetado corrói-me as narinas e dilata-me os pulmões. As batas brancas deambulam em passo acelerado e o profissionalismo que se sobrepõe às emoções deixa-me inquieto. Esconde-se a dor atrás dum analgésico e a programação televisiva nunca coincide com o ambiente transmitido pelos olhares. A respiração dos residentes deixa-me ofegante. Tento passar despercebido e alhear-me do sofrimento que me rodeia, mas quando o coração já viu pouco ou nada se pode fazer.

As memórias desfilam perante a retrospetiva na esperança de que nada tenha ficado por fazer. A frustração de não poder sair daquele colchão e mudar o que não faz sentido mistura-se com a dor que escorre pelos olhos. Parece que é preciso parar sem se poder mexer para querer sair porta fora e viver a vida que se podia ter vivido. Será que é necessária uma doença terminal para querermos dar início ao nosso esplendor? Será obrigatório não gostarmos daquilo que vemos ao espelho para começarmos a refletir? Será que é preciso um susto para perdermos o medo de viver?

Este fim de semana fui ao funeral do Júlio. O seu corpo chegou ao fim. Felizmente, nunca encontraremos almas cheias no vazio da morte. A vida é curta, mas o Júlio tratou de garantir que não fosse pequena.

Não mata, mas dói

Preciso da vossa ajuda. É importante, a sério. Tenho uma dúvida que preenche todos os meus poros e está-me a entupir a esperança. Não, não é daquelas que se resolve com um simples “google it”. É um bocadinho mais elaborada. Ou talvez não. Como ser humano que sou, posso estar somente a ser complicado. A minha questão está relacionada com a consistência da vida. Para além do “vai-se andando”, cresci a ouvir que a vida era dura, que tinha de doer. Quanto a vocês não sei, mas para quem está a viver pela primeira vez, como é o meu caso, não será prematuro partir logo do princípio que grande parte desta jornada irá ser um martírio?

Quem é que inventou que a vida tinha de ser assim tão dura que nem a própria utopia conseguiria penetrá-la? Gostava mesmo de conhecer essa pessoa. Por momentos, cheguei a desconfiar da minha avó, autora do êxito “cá o encontrámos, cá o havemos de deixar”. Mas não, não foi ela. Isto já vem lá de trás, algures entre os dinossauros e um “-ítico” qualquer. Tendo em conta a ancestralidade desta lei, é óbvio que o criador já nem pode estar vivo. Não importa. Quero um nome, um rosto, uma ossada. Alguém a quem possa apontar o dedo. Ou talvez não seja preciso. Se calhar os autores deste esconderijo sejamos cada um de nós, não acham?

A vida terá, certamente, momentos de tristeza e situações inglórias. Algures ao longo dos anos, iremos bater no fundo e querer desistir de tudo. Vamos chorar pelos que partiram e gritar por termos cá ficado ainda mais sós. Podemos não a viver, mas, seguramente, vamos assistir a muita miséria. Contudo, não é (só) isso que me preocupa. Assustam-me a falta de dúvidas e a extinção do brilho nos olhos. Arrepia-me o desaparecimento da reflexão como meio de evolução. Fico apavorado cada vez que ouço “a vida é mesmo assim”. “Assim como?”, pergunto eu sempre, num tom indignado. Até agora nunca ninguém me soube responder. Será que ando com azar ou será que os argumentos ainda não chegaram? Estou mais inclinado para a segunda.

Vamos andando em vez de correndo. Atrás dos fracassos, muitas vezes, esconde-se um sucesso inimaginável. Porém, esperamos sempre o pior. Pessimistas crónicos ou meros gestores de expectativas? Não sei, desta vez estou mais inclinado para a primeira. A vida mais aguentada do que vivida não deveria servir. Achamos normais completos absurdos. Abraçamos a tristeza e envergonhamo-nos da alegria. Expomos os nossos problemas com orgulho e encobrimos as vitórias. Abdicamos do nosso potencial porque acreditamos, convictamente, que não somos ninguém. Alguém consegue entender isto? Nadamos tanto e só quando os braços desistem de empurrar a vida para a frente é que percebemos que a flutuar chegamos mais longe. A árvore não luta para crescer. A onda não pede para elevar a sua crista. A nuvem não explica a sua forma. A vida flui, sem esforço. Porque haveremos de ser a exceção?

Gostamos de fazer acontecer, mas não deixamos que aconteça. O impossível, muitas vezes, confunde-se com o medo de fracassar. Fantasiar é aceitável, acreditar que se consegue realizar já é gozar com a ingenuidade. Andamos por aí a dizer que o sonho comanda a vida, mas depois, cobardemente, desobedecemos. Preferimos aceitar ordens do que não nos leva a lado nenhum pois “tem de ser”. A “vida é dura” porque “tem de ser” – que bela dupla. Na verdade, só seguimos estas espécies de leis universais se nós quisermos que assim seja. A vontade própria deveria ser isso mesmo, própria.

O medo é tanto que ninguém se perde, todos se conformam. Mas não, não tem de ser assim. Ousemos perder-nos as vezes que forem precisas até que nos encontremos. Até que seja claro o que é nosso e o que é simplesmente emprestado. Até que entendamos que a vida, em grande parte, é aquilo que fizermos dela. “A vida é dura porque sim”. “Porque sim” não é resposta, já dizia a minha mãe. Porquê? Porque não. Irritante, não é? Olhem, “é a vida”.

Isto é tudo muito bonito, mas

Isto é tudo muito bonito, mas, um dia, todos iremos morrer. Não importa a raça, o género, nem o estatuto social. Há-de chegar o momento em que o nosso coração irá parar de bombear o sangue e os pulmões irão suster a respiração para sempre. O património que acumulámos ao longo da vida em nada influenciará o destino final da forma que outrora tivéramos. A nossa última paragem será o aconchego de um pote ou a cobertura de uma placa de mármore onde estará inscrito o tempo que por cá passámos. Na vida, à excepção da morte, tudo é incerto, não existe maior verdade do que a finitude do nosso corpo. A morte está mais próxima do que pensamos até porque, na verdade, não investimos muito tempo a pensar sobre ela. Será medo? Inconsciência? O que nos leva a ignorar a verdade mais absoluta que conhecemos?

Felizmente, todos nós, ainda, estamos vivos. Infelizmente, nem todos sabemos o que fazer com esse estado biológico. Muitos de nós insistem em seguir receitas que não são suas, uma vez que vasculhar no meio dos nossos “ingredientes” pode ser aterrorizante. Fingimos ser felizes na esperança de que os outros acreditem na nossa máscara. Podemos conseguir enganar muita gente, mas se olharmos bem para o nosso íntimo veremos que algo se passa. Somos assaltados por inquietudes, nervosismos e ansiedades que rapidamente nos corroem pois não sabemos interpretá-los como bênçãos. Estas três sirenes que já tocaram no interior de todos nós são fundamentais para detectar que algo está fora do sítio. O caminho que estamos a percorrer certamente não é nosso.

Imaginem uma pessoa que não quer ir a lado nenhum, mas começa a construir uma estrada. Esta pode ser longa o suficiente para lhe ocupar a vida toda. Pode implicar destruir florestas ou construir pontes, acrescentar faixas ou até mesmo lombas. Agora imagina que essa pessoa és tu e constatas que essa é a tua estrada, mas que não te leva a lado nenhum. De que serviu construí-la? Podemos correr toda a vida para acumular coisas — seja riqueza, fama, paz de espírito, amor, poder ou leveza —, quando o fim chegar estaremos frente a frente com a morte e aí a nossa vida será submetida ao derradeiro teste, tudo o que acumulámos terá o devido significado ou não? Teremos dentro de nós algo incapaz de ser destruído pela própria morte?

O medo do futuro rouba-nos a vida, mas o receio de não ter vivido deveria ser suficiente para nos manter acordados. Aceitamos o papel de vítimas, pois tudo é mais fácil se a culpa não for nossa. Subimos a palco com a possibilidade de ser a personagem principal, mas prontamente assumimos o papel de figurante. Para quê? Vivemos forrados de desculpas como: “não tenho tempo”, “agora com filhos é difícil”, “já não tenho idade” ou “isso não é para mim”. Entregamos de mão beijada aquilo que temos de mais precioso na nossa vida: um propósito. Isto é tudo muito bonito, mas enquanto pensarmos que o que estamos a fazer é o mais adequado, enquanto a forma como “vivemos” nos parecer a mais acertada, não poderemos traçar o nosso caminho rumo à eternidade.

Certo dia, Bernard Shaw sugeriu que deveriam existir tribunais no mundo onde as pessoas tivessem de comparecer de três em três anos para provar que nesse período a sua vida tivera sentido. Era apenas uma piada, até porque tal ideia seria muito difícil de materializar. Mas, como alternativa, cada um de nós pode ser o seu próprio juiz e perguntar diariamente “como é que estou a viver? É com esta vida que irei conseguir destruir a morte?” É mais importante perguntarmos a nós mesmos porque é que queremos viver, ao invés de continuar apenas a fazer preparativos para uma vida que pode nunca acontecer. Perguntar porque é que queremos existir, ao invés de continuar apenas a proteger a nossa própria existência. Ninguém se vai lembrar de nós por sairmos sempre depois do chefe. No nosso funeral ninguém vai dizer “nunca me vou esquecer das fantásticas apresentações em powerpoint que ele fazia”. O nosso carro, a nossa casa, todos esses feitos que nos custaram tanto tempo, quando o resumo das nossas vidas passar a correr, não valerão nada. Tudo se irá resumir à forma como decidimos viver e que impacto tivemos nos outros. Escolhemos dedicar o nosso tempo a determinadas coisas porquê? Foi uma decisão totalmente baseada no livre-arbítrio ou limitámo-nos a ceder ao que era suposto?

É urgente analisar a vida como se estivéssemos a enfrentar a morte. Afinal de contas, no nosso último dia vivos, será necessário avaliá-la, mas nessa altura já nada poderemos fazer em relação a isso. Para quê esperar por um cancro ou uma doença terminal para fazer este juízo? Um dia não haverá amanhã, portanto façamos do hoje algo que dure para sempre.

Vitória

A vida boa, agora velha, ficou para trás. As festas no cabelo da minha Leonor perderam-se algures nos vales dos calos das mãos. Entre o lembrar e o esquecer, ainda não descobri qual provoca menos dor. A caixa de cartão espalmada tornou-se um colchão demasiado ortopédico para as minhas costas. A bebida vai servindo para afugentar a mágoa enquanto os candeeiros ofuscam as estrelas. O relento arrepia e escurece-me a alma. Tomar duche deixou de ser opção para se tornar obrigação, de cada vez que chove. Pelo menos ajuda a resolver esta maldita comichão no nariz. Sempre fui feminina, algures entre o pintada e o arranjada. A rua deu-me os buracos na camisola e os pelos compridos, agora comprimidos pelas meias de vidro que nunca deixei de usar.
Acreditem, o pior de tudo é estar com abrigo, mas sem-lar. Sobreviver na rua dói. Os olhares preconceituosos são como lâminas que dilaceram o pouco de auto-estima que ainda me resta. As pessoas passam e eu fico, de mão estendida, à espera que caia algo. Nunca soube como vim aqui parar e agora nem sei por onde começar. Quem me dera que este fosse um beco com saída. Fugir, voltar a trás e recomeçar. Ser, novamente, humano. Comer de novo um guarda-chuva de chocolate com a minha menina. Sentir gratidão por estar viva. Já caí sete vezes, mas ainda só me levantei seis. Estou em dívida para comigo.

Desculpem o desabafo, mas é a única forma de contornar estes dias em que só me apetece
mudar de nome para “Derrota”.