As Ruas

Tranco-me em casa para me sentir livre. Vagueio por entre as divisões descansado, pois ao contrário do mundo lá fora, tudo vai estar no mesmo sítio. Escondo-me da porta que ficou por segurar, do bom dia que ficou por dizer e das buzinas que nunca hesitam em tocar. Serei cobarde? Será que escolher o caminho mais fácil é uma atitude medíocre? Creio que não. Limito-me a resguardar a minha serenidade.

Quanto mais observo mais me doem os olhos. Fico triste por ver que as pessoas não vêem o que se passa à sua volta. O carro que não parou na passadeira porque quem está a pé pode esperar. A mãe que grita para o filho como se ele fosse o culpado de ter nascido. O lixo que vai parar ao chão porque o chão é de todos, logo é como se a culpa não fosse de ninguém. A casa de banho pública em que, talvez por ter um perímetro inferior, a sanita insiste em desviar-se da urina. Onde foi que erramos enquanto animal racional?

As ruas estão cheias de gente vazia. Certamente os seus corações bombeiam ignorância em vez de amor. Tropeçam nos seus disparates e ainda que a queda seja aparatosa, não é o suficiente para acordarem. Julgavam que os zombies eram ficção? Basta saírem à rua que eles andam por aí.

E aqueles que, impávidos e serenos, assistem a tudo isto sem intervir, são os maiores culpados. Sim, vocês que viram a cara depois de já ter visto ou fecham os olhos depois dos vossos princípios já terem assistido a tudo o que se passou. Julgam-se superiores por não terem aquele tipo de atitudes mas, na verdade, não passam de meros cúmplices. Assistentes da podridão com que entupimos o espaço partilhado por todos. Vocês que se gabam de querer o melhor para os vossos filhos mas depois, pela calada, alheiam-se de tudo aquilo que promove uma existência podre. “Mas o que é que queres que eu faça?” – perguntam eles. Fingem que não sabem o que fazer para tentar não perder o sono. Adormecem a responsabilidade, ligam o piloto automático e abdicam da sua humanidade tornando-se, apenas, humanóides.

As ruas continuam cheias e as almas por preencher. Se somos tantos porque parecemos tão pouco? Todos juntos podíamos valer mais do que queremos valer. As nossas acções são valiosas e sim, podem mesmo mudar o mundo. Seja ele de quem for, ousemos tocar todos os mundos que estiverem ao nosso alcance. O nosso, da pessoa com quem multiplicamos o amor, dos filhos, dos amigos, dos vizinhos, dum estranho.

Um dia, as ruas hão-de, finalmente, ficar vazias. As pessoas encher-se-ão de amor e o espaço voltará a ser navegável.

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Ninguém é “Zé-Ninguém”

Ninguém é perfeito, somos todos perfectíveis.
“Perfeito”, do latim “perfectus”, significa “completo”, “acabado”. Ora bem, ao contrário dos bens materiais, esses sim acabados e, eventualmente com algum defeito, nós viemos ao mundo com particularidades e para nos irmos aperfeiçoando.
Felizmente, estamos tudo menos acabados. Muitas vezes, nem a própria morte põe fim a este caminho que tem como destino a melhor versão de nós próprios. Então, se todos somos estes seres com a capacidade e o poder de se auto-transformar, como pode alguém ser ninguém?
“Tens de ser alguém na vida”, era este o mote. Consoante o meio social em que se estava inserido, “ser alguém” tinha diferentes definições. Por norma, andava sempre à volta do ser rico, famoso, notável ou poderoso. As expectativas eram mais que exacerbadas e, na maioria dos casos, reflectiam os desejos não alcançados pelos pais. Sem o escudo da experiência para nos proteger, foi essa frustração, muitas vezes, o motor do nosso condicionamento.
Sermos nós próprios parece não ser suficiente. Paira no ar a sensação de que “ser eu” é o degrau que antecede o “ser alguém”. Esta inferiorização da nossa originalidade castra toda a nossa essência. Isto em nada engrandece a nossa auto-estima, muito pelo contrário, torna-nos buscadores de aprovação. Andamos por aí a ressacar por aceitação. Sedentos de compaixão, formatamo-nos de forma a conseguir fazer parte desta formação de gente que só quer ser alguém que não eles próprios. Este tétris social é muito semelhante ao jogo, quando finalmente encaixamos, desaparecemos. Mas, felizmente, estamos sempre a tempo de nos reencontrarmos. Caso não estejamos satisfeitos com quem somos é porque não estamos a viver a nossa verdade. Quando assim é, resta-nos usar a energia que a vida nos deu e pô-la ao serviço de nós mesmos. A verdade é esta, fomos formatados para ser algo que já o éramos: Alguém. Todos fazemos parte dum grande puzzle. E como em qualquer puzzle, todas as peças são fundamentais. Seria impossível completar a imagem da caixa se deixássemos “alguém” de fora. Não importa a sua forma, muito menos o seu conteúdo. Importa sim o que ela é, uma peça, uma parte do todo. Apesar de cada uma ter o seu papel, todas são importantes. E ai da peça que tentar encaixar numa posição que não a sua, além de estragar a imagem final, ainda se arrisca a ter de se (es)forçar para ocupar o seu lugar.
“Sê tu próprio”, repetiu-me tantas vezes a minha Mãe. Momentos de insegurança e incerteza levavam-me a crer que tinha de desempenhar um papel que não era meu. Em vez dum conselho simplório, eu queria era um guião. Era difícil enxergar toda a sabedoria que fluia naquelas palavras. Parecia demasiado simples para ser “só” assim. Achamos que a vida tem um manual de instruções e tem mesmo, mas cada um tem a sua versão.
Após ter subido a palco em várias ocasiões e ter participado vezes sem conta no baile de máscaras, hoje não me restam dúvidas: cada um de nós é o melhor a fazer de si próprio. E esta não é a melhor nem a pior solução, é a única.
Ninguém é “zé ninguém”. Sinto, profundamente, que todos somos um “zé alguém”. Cada um de nós é alguém que importa a alguém, mais que não seja a si próprio. Somos seres excepcionais e irrepetíveis! Todo somos alguém capaz de amar, contemplar a natureza e ter ideias. A criatividade galopa no nosso ADN enquanto a imaginação dá coices à realidade cinzenta com que nos querem encobrir o coração. A mensagem que transportamos é inigualável e imprescindível. Todos temos a capacidade de aprender e ensinar, inspirar e refletir, observar e absorver.
Como já dizia o saudoso Professor Agostinho da Silva “faça o favor de cumprir-se”. Todos, sem excepção, viemos cá para ser alguém, alguém capaz de cumprir o seu papel, o seu divino propósito.
Sendo assim, o que nos falta afinal? Falta perceber que não nos falta nada, rigorosamente nada.

Desistir para Ganhar

Qualquer um de nós seria o primeiro a reprovar a falta de inteligência de um agricultor que, sendo proprietário de um terreno fértil, optasse por plantar as suas sementes num areal. Porém, é isso que sistematicamente vamos fazendo com as nossas vidas. Desperdiçamos toda a nossa paixão, talento e entusiasmo em rotinas arenosas que enclausuram o brilho que carregamos no âmago do nosso ser. Vivemos desencontrados de nós mesmos. Vemo-nos cada vez menos e, muitas vezes, morremos (quase) literalmente de saudades de nós próprios. Porém, parece que este distanciamento da nossa essência é um alarme que não toca alto o suficiente para que acordemos do coma social. Mas afinal, onde é que nos perdemos? Em que fase deixámos de trilhar o nosso próprio caminho?

Talvez o primeiro momento em que tivemos de decidir “esquerda ou direita?” tenha sido nas vésperas da ida para a faculdade. Parece surreal (e para mim é) que se esteja a pedir a jovens de 18 anos que decidam naquele momento qual vai ser a sua profissão para o futuro. Ao mesmo tempo que não têm autonomia para ir à casa de banho sem pedir ao professor, exige-se que saibam o que querem fazer das suas vidas. É, no mínimo, incoerente. Contudo, e colocando a discussão dos sistemas de educação de parte, é na escolha do curso que muitos de nós calça pela primeira vez sapatos que não são os seus. O facto de se ter boas notas rapidamente remete quem nos rodeia para a ideia de que não se pode “desperdiçar” a média em “cursos sem saída”. A meu ver, a única coisa sem saída neste tipo de sugestões é o beco em que sugerimos que a pessoa enfie a sua vida. Temos de ter uma carreira, estabilidade financeira, estatuto social e, em troca, uma vida enfadonha. Para quê? Ter “Dr.” ou “Dra.” antes do nome no cartão multibanco nunca foi, nem nunca será, sinónimo de alegria. Provavelmente foi aqui a primeira vez em que, para nos sentirmos mais (des)integrados, pusemos de parte aquilo que nos apaixonava.

Entretanto, a vida continuou. Temos agora um curso e um trabalho que não nos dizem grande coisa, mas toda a gente diz que “é melhor que nada”. Se é o que toda a gente diz, nós temos mais é que acreditar. A possibilidade de estarem todos enganados nem nos passa pela cabeça. Somos agora demasiado novos para assentar e demasiado crescidos para andar a saltar de namoro em namoro. Ainda assim, ficar no meio-termo é demasiado “arriscado” face ao que podem julgar de nós. À semelhança da profissão que exercemos, o nosso relacionamento já não nos faz palpitar o coração. As borboletas no estômago há muito que bateram as asas para outro lado e a força do hábito é a única coisa que nos mantém unidos. A auto-estima naufragada no mar da apatia leva-nos a ter a certeza de que melhor do que aquilo que temos já não vamos arranjar. “Mais vale um pássaro na mão do que dois a voar”, mesmo que esse pássaro já não saiba bater as asas. Portanto, o cenário mais seguro será acomodarmo-nos. Desta forma junta-se à vida profissional mais ou menos uma vida amorosa assim-assim.

Sem saber nem como nem porquê, tornámo-nos pessoas medíocres. Até nos podemos achar boas pessoas, mas não soubemos ser pessoas boas para nós mesmos. O “não me apetece, mas tem de ser” ecoa nas nossas cabeças vezes suficientes para nos levar a crer que tem mesmo de ser assim. Mas será que tem?

Para ganhar, às vezes, é necessário desistir. Abdicar daquilo que não é nosso alivia a nossa mochila existencial e, por isso, o nosso voo fica facilitado. Se não for justo, então não serve. Viver à larga passa por recalcular a rota e evitar os caminhos mais apertados. E tudo isto depende mais de nós do que imaginamos. Não se trata daquilo que a vida fez connosco, trata-se sim daquilo que nós soubemos fazer com aquilo que a vida fez connosco. E não, não é preciso ser-se nem destemido nem audaz, muito menos corajoso. Levar uma vida (es)forçada requer muito mais energia e destreza do que viver a nossa verdadeira vida. Experimenta espreitar além da cortina que nos rodeia e aí reencontrarás tudo aquilo que a intuição já te vem gritando há tempos.

Tenta e (vi)verás.

(F)Útil

Correria. O dia ainda agora se ergueu e ela já curvou o pescoço. Por entre gostos, histórias e seguidores, a sua ânsia de aparecer palpita ferozmente. Segue pessoas que não vão para onde quer ir e angaria seguidores sem os levar para lado algum. Filtra fotos para, tal e qual como ela, não se pareçam com aquilo que realmente são. É o baile de máscaras onde a única coisa que não se disfarça é a farsa que, ainda que encoberta, está lá. O dia ainda agora começou e ela já voltou a cair na rede social.

Ela ambicionava subir a escada da felicidade. Para isso, fazia degraus de roupas, maquilhagem e bugigangas para tentar lá chegar. O corrimão feito futilidade era inútil, pois ela balanceava como uma bailarina que se esqueceu de como dançar. Ela via-se frágil, desgostosa e sem hipóteses. Levava a vida com o sorriso escondido por entre os lábios e só mostrava os dentes quando algum flash a isso a obrigava.

O mundo não lhe exigia que fosse assim. A sociedade só molda os maleáveis, aqueles que optaram por parecer em vez de ser. Continuará insegura se insistir em segurar-se às frágeis cordas que são as aparências. Agradar quem não nos agrada não tem nada de agradável. Quando deixar de filtrar fotos e começar a filtrar quem a rodeia, aí sim, viverá a diferença.

A alegria de viver tem sido consecutivamente adiada. Parecia que estava quase, mas nunca mais chegava. Ela guardava a chave da sua essência numa gaveta do seu quarto. Eu via-a como um cofre, uma caixa forte mas numa versão mais fraca. Tinha medo de saber aquilo que guardava com receio de se vir a assustar. Por isso, mantinha-se fechada e distante da chave. Infelizmente, ela não sabia que só seria aceite quando se aceitasse a ela própria.

Recado para ela:

Gostares de ti só depende do que fizeres contigo.

Tentativa

Já não dá mais.

Deram-te rédeas, livre-arbítrio e intuição para quê? Vá, diz lá. Não estejas a esconder a resposta em mais uma daquelas mentiras que dizes a ti próprio. Já sabes tudo o que precisas saber. Tudinho, não te falta nada. Mas ainda assim, a vida assusta-te. Como é que podes amedrontar-te com a razão pela qual estás cá? Não fujas se faz favor.

Sai daí.

Qual estabilidade? Qual segurança? Não há porra nenhuma! Todos os caminhos são difíceis. A diferença é que uns são teus e outros não. Deixa a vida desvendar-se. Chega de te esvaíres em desculpas. A única coisa fácil que tens a fazer é seres tu próprio que, na verdade, é a única que fazes realmente bem.

Chega.

Mais perto de ti. Larga o rebanho que te arrepanha as vontades, abafa-te os instintos e esmaga-te a identidade. Tu és tu, és único e isso é do caraças. Porque não aproveitar? Para quê ser como uma peça de tetris que, quando finalmente se encaixa, desaparece? Desalinha-te.

Por agora é tudo.

Mentira aquilo que tens vivido. Não existem fórmulas nem receitas. A única forma de lá chegar é a andar, ver, sentir e absorver. É tudo teu, por isso não mandes nada fora por favor. Não tens de correr bem, tens somente de correr.

 

Lembrei-me:

O sucesso é

viveres a tua verdade.

Imaginário

Respira, sossega, relaxa.

Imagina.

Visualiza um Mundo onde queres, deves e podes ser quem és. Há espaço para viver e o julgamento dos outros será isso mesmo, dos outros. Terás todo o tempo para aquilo que realmente queres. O entusiasmo será o teu despertador e a paixão quem não te deixará dormir. Viverás em paz com o tempo. Cada vez que o passado vier atrás de ti, o melhor a fazer será agarrá-lo. Vais escutá-lo com toda a tua atenção e de seguida libertar-te-ás dele. Olharás para o futuro da mesma maneira que um escritor contempla a folha em branco. O livre-arbítrio é teu, escreve o que quiseres. O presente será a tua maior dádiva. Agora será sempre o melhor momento para aceitares o que não depende de ti, afastares-te do que não interessa e mudar tudo aquilo que merece a tua energia.

Neste Mundo, vais poder usar a intuição como bússola. A razão e a lógica serão curtas para as grandes distâncias que queres percorrer. O cérebro do coração terá sempre razão. A felicidade não será proporcional aos sacrifícios que fizeres. Os melhores momentos resultarão da espontaneidade e não do esforço que aplicares. Poderás ter apenas os relacionamentos que se adequarem a ti. Serão genuínos e orgânicos, tal e qual como a tua existência.

Não precisarás da sexta-feira para te divertires nem do fim-de-semana para descomprimir. O stress será nulo. Não por falta de momentos de tensão, mas sim porque serás capaz de encará-los com tranquilidade e serenidade.

As regras serão ditadas por ti. Suponhamos que és tu quem define o que é suposto, já imaginaste como seria? Não terás que adiar a vida à espera do momento ideal. A altura certa será sempre agora e esse sim, será o teu (maior) presente.

Sentirás empatia pela incerteza e pelo desconhecido. Não precisarás de ter vergonha de dizer “não sei”, pois tudo o que necessitares saber até ti virá na devida altura.

Esquece tudo isto.

Podes abrir os olhos e parar de imaginar, pois este Mundo já é teu.

(de) Propósito

Mais um dia que passou. Os minutos voaram e a ilusão de que não temos os suficientes ludibria-nos os sentidos. Ao contrário dos tempos que correm, o tempo é a coisa mais democrática que existe. Independentemente da raça, sexo ou feitio, todos temos as mesmas 24 horas por dia. São 1440 minutos em que podemos decidir se os dedicamos simplesmente a respirar ou a dar-lhes um propósito.

Existimos em esconderijos. Por entre preocupações e ocupações, fingimos ser felizes achando que é possível enganarmos-nos. Somos assaltados por pensamentos que desfalcam a nossa biologia. Chamam-lhe stress, dizem que é do sistema nervoso, mas para mim não passa de medo de viver. As portas nunca serão entradas se não ousares atravessá-las. Espreita e verás.

Qual o significado da tua vida? Vieste cá fazer o quê? Pior do que não saber só mesmo não ter vontade de espreitar para além das cortinas da ignorância. Experimenta cair e passar algum tempo no chão a ouvir a lição da queda. Ergue-te, exprime-te, vai. Corre para onde o teu coração te mandar. Se a vida e o tempo são teus, porque é que as escolhas não o hão de ser?

Escolhe, insiste, confia, brilha. Se é a única que tens, porque não aproveitar? Não deixes tela por pintar nem solo por semear. Todos somos férteis, mas nem todos se querem regar.

Viver é mais do que inspirar e expirar. Morrer antes de deixar de respirar é uma opção. Suicida-te sempre que for necessário. Renasce quando estiveres pronto.