(F)Útil

Correria. O dia ainda agora se ergueu e ela já curvou o pescoço. Por entre gostos, histórias e seguidores, a sua ânsia de aparecer palpita ferozmente. Segue pessoas que não vão para onde quer ir e angaria seguidores sem os levar para lado algum. Filtra fotos para, tal e qual como ela, não se pareçam com aquilo que realmente são. É o baile de máscaras onde a única coisa que não se disfarça é a farsa que, ainda que encoberta, está lá. O dia ainda agora começou e ela já voltou a cair na rede social.

Ela ambicionava subir a escada da felicidade. Para isso, fazia degraus de roupas, maquilhagem e bugigangas para tentar lá chegar. O corrimão feito futilidade era inútil, pois ela balanceava como uma bailarina que se esqueceu de como dançar. Ela via-se frágil, desgostosa e sem hipóteses. Levava a vida com o sorriso escondido por entre os lábios e só mostrava os dentes quando algum flash a isso a obrigava.

O mundo não lhe exigia que fosse assim. A sociedade só molda os maleáveis, aqueles que optaram por parecer em vez de ser. Continuará insegura se insistir em segurar-se às frágeis cordas que são as aparências. Agradar quem não nos agrada não tem nada de agradável. Quando deixar de filtrar fotos e começar a filtrar quem a rodeia, aí sim, viverá a diferença.

A alegria de viver tem sido consecutivamente adiada. Parecia que estava quase, mas nunca mais chegava. Ela guardava a chave da sua essência numa gaveta do seu quarto. Eu via-a como um cofre, uma caixa forte mas numa versão mais fraca. Tinha medo de saber aquilo que guardava com receio de se vir a assustar. Por isso, mantinha-se fechada e distante da chave. Infelizmente, ela não sabia que só seria aceite quando se aceitasse a ela própria.

Recado para ela:

Gostares de ti só depende do que fizeres contigo.

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Tentativa

Já não dá mais.

Deram-te rédeas, livre-arbítrio e intuição para quê? Vá, diz lá. Não estejas a esconder a resposta em mais uma daquelas mentiras que dizes a ti próprio. Já sabes tudo o que precisas saber. Tudinho, não te falta nada. Mas ainda assim, a vida assusta-te. Como é que podes amedrontar-te com a razão pela qual estás cá? Não fujas se faz favor.

Sai daí.

Qual estabilidade? Qual segurança? Não há porra nenhuma! Todos os caminhos são difíceis. A diferença é que uns são teus e outros não. Deixa a vida desvendar-se. Chega de te esvaíres em desculpas. A única coisa fácil que tens a fazer é seres tu próprio que, na verdade, é a única que fazes realmente bem.

Chega.

Mais perto de ti. Larga o rebanho que te arrepanha as vontades, abafa-te os instintos e esmaga-te a identidade. Tu és tu, és único e isso é do caraças. Porque não aproveitar? Para quê ser como uma peça de tetris que, quando finalmente se encaixa, desaparece? Desalinha-te.

Por agora é tudo.

Mentira aquilo que tens vivido. Não existem fórmulas nem receitas. A única forma de lá chegar é a andar, ver, sentir e absorver. É tudo teu, por isso não mandes nada fora por favor. Não tens de correr bem, tens somente de correr.

 

Lembrei-me:

O sucesso é

viveres a tua verdade.

Imaginário

Respira, sossega, relaxa.

Imagina.

Visualiza um Mundo onde queres, deves e podes ser quem és. Há espaço para viver e o julgamento dos outros será isso mesmo, dos outros. Terás todo o tempo para aquilo que realmente queres. O entusiasmo será o teu despertador e a paixão quem não te deixará dormir. Viverás em paz com o tempo. Cada vez que o passado vier atrás de ti, o melhor a fazer será agarrá-lo. Vais escutá-lo com toda a tua atenção e de seguida libertar-te-ás dele. Olharás para o futuro da mesma maneira que um escritor contempla a folha em branco. O livre-arbítrio é teu, escreve o que quiseres. O presente será a tua maior dádiva. Agora será sempre o melhor momento para aceitares o que não depende de ti, afastares-te do que não interessa e mudar tudo aquilo que merece a tua energia.

Neste Mundo, vais poder usar a intuição como bússola. A razão e a lógica serão curtas para as grandes distâncias que queres percorrer. O cérebro do coração terá sempre razão. A felicidade não será proporcional aos sacrifícios que fizeres. Os melhores momentos resultarão da espontaneidade e não do esforço que aplicares. Poderás ter apenas os relacionamentos que se adequarem a ti. Serão genuínos e orgânicos, tal e qual como a tua existência.

Não precisarás da sexta-feira para te divertires nem do fim-de-semana para descomprimir. O stress será nulo. Não por falta de momentos de tensão, mas sim porque serás capaz de encará-los com tranquilidade e serenidade.

As regras serão ditadas por ti. Suponhamos que és tu quem define o que é suposto, já imaginaste como seria? Não terás que adiar a vida à espera do momento ideal. A altura certa será sempre agora e esse sim, será o teu (maior) presente.

Sentirás empatia pela incerteza e pelo desconhecido. Não precisarás de ter vergonha de dizer “não sei”, pois tudo o que necessitares saber até ti virá na devida altura.

Esquece tudo isto.

Podes abrir os olhos e parar de imaginar, pois este Mundo já é teu.

(de) Propósito

Mais um dia que passou. Os minutos voaram e a ilusão de que não temos os suficientes ludibria-nos os sentidos. Ao contrário dos tempos que correm, o tempo é a coisa mais democrática que existe. Independentemente da raça, sexo ou feitio, todos temos as mesmas 24 horas por dia. São 1440 minutos em que podemos decidir se os dedicamos simplesmente a respirar ou a dar-lhes um propósito.

Existimos em esconderijos. Por entre preocupações e ocupações, fingimos ser felizes achando que é possível enganarmos-nos. Somos assaltados por pensamentos que desfalcam a nossa biologia. Chamam-lhe stress, dizem que é do sistema nervoso, mas para mim não passa de medo de viver. As portas nunca serão entradas se não ousares atravessá-las. Espreita e verás.

Qual o significado da tua vida? Vieste cá fazer o quê? Pior do que não saber só mesmo não ter vontade de espreitar para além das cortinas da ignorância. Experimenta cair e passar algum tempo no chão a ouvir a lição da queda. Ergue-te, exprime-te, vai. Corre para onde o teu coração te mandar. Se a vida e o tempo são teus, porque é que as escolhas não o hão de ser?

Escolhe, insiste, confia, brilha. Se é a única que tens, porque não aproveitar? Não deixes tela por pintar nem solo por semear. Todos somos férteis, mas nem todos se querem regar.

Viver é mais do que inspirar e expirar. Morrer antes de deixar de respirar é uma opção. Suicida-te sempre que for necessário. Renasce quando estiveres pronto.

Oposto

O dia começa e tu ainda nem a meio do teu passado vais. Ao contrário de ti, o sol despertou e decidiu brilhar. Colocas o teu disfarce e preparas-te para o baile de máscaras. Os inúmeros anos de prática fizeram de ti um exímio bailarino, sem dúvida. “Muita merda” para ti. Não sei se por, uma vez mais, subires ao palco ou por aquilo que lá vais fazer. Talvez seja por ambos.

Ris para não parecer mal. Finges para te encaixares bem. Tanto disfarce, tanto contrassenso. O que queres afinal? Chegar ao final da tua história e não teres nem princípio nem meio, só fim? Não tem de ser assim. Não vivas assim-assim. Não faças da tua vida uma breve passagem quando pode ser uma intensa Mensagem. Reescreve-te.

Se estás mortinho para seres tu próprio, então suicida quem não és. Destrói o muro que construíste. Não te protege de nada, só te afasta de tudo. De tudo o que é teu, de tudo o que importa. Não te arrependas de nada. Desculpa-te de tudo. Há comboios que só passam uma vez, mas esses felizmente não são para ti. Se forem tuas, as oportunidades nunca te vão largar.

Quando não sentires, hesita. Evita aquilo que não é teu. Dita as tuas regras. Conquista as tuas visões. Medita sobre o assunto. Pode ser?

Robusto 

Da mesma maneira que não pedi para nascer, também não tenciono pedir para morrer. Somente peço a mim mesmo algo de relevante entre esses dois acontecimentos. Algo que valha a pena em que por vezes transformamos a nossa vida.

Não me sinto daqui. Nem d’além. Sinto-me um estrangeiro no mundo que me rodeia. Fugir? Nem pensar, quanto mais corro mais me perco. Vou tentar parar e sentir antes de atravessar o caminho. 

Precipito-me e ausento-me. Fui e não devia, sorri e nem queria. Apesar da cara lavada, fujo para o sujo. Sítios peganhentos colam-se a mim e incendeiam-me. Quando o fogo é de artifício, a chama nunca aquece. Se tudo é o que tem de ser, para quê insistir em esquecer? Já passou.

Quando não se é, então o que somos? Ninguém. Por isso, escolhi os princípios que me levam além mesmo que para isso me julguem ingénuo. Espaços cheios de gente vazia observam-me. Confundem simpatia com fragilidade. Abafam o amor-próprio e substituem-no por arrogância. Escondem o pragmatismo atrás do excesso de confiança. Assertividade nunca foi prepotência. Cruzam a calma com a liberdade e chamam-lhe passividade. O silêncio nunca se deveu à falta de palavras. A realidade pode ser cruel, eu é que não.

Dizem que levo a vida demasiado a sério. Normal, é a única que tenho. 

P.S.- Já que aqui estou, deixa-me ao menos tentar ser eu.

Ausente

Pára com isso.

Abranda. Vais ficar aí? Enquanto os ponteiros davam 60 passos, porque optaste por ficar a marcar passo? Não entendo. A vida só é mesmo assim caso não queiras chegar ao fim. Tantas corridas e tão poucas metas. Chega.

És acusado de homicídio dos teus tempos mortos e não percebes o porquê de estares no banco dos réus. Estranho. És sem saber, dizes sem sentir. O que fazes para além de respirar? Ausentaste-te por breves instantes, mas nunca mais voltaste. Onde estás? Eu sei que dói, mas por favor volta. Marcado pelo passado, foges do presente com pânico de chegar ao futuro. Respira. Viver é saber esperar sem nunca perder tempo. Encontra-o. Ele voa e tu insistes em não bater as asas. Absurdo. A resistência não passa de ausência de paciência. Corrida contra o tempo? Ele ganha sempre, tem mais do que tu. Vai.

De nada adianta atrasar a vida. Ela está aqui e agora. Agarra-a. Já não te vês há quanto tempo? Causa da morte: amnésia afectiva. Esqueceste-te de amar. Foi para isto que exististe? Encontra-te. Vai contigo, com calma, com tudo. Onde é que andas com o coração? Sentes o batimento, mas falta-lhe pulsação. Estás a tempo. Volta.

Desculpa a sinceridade, mas ao contrário da tua atitude, o teu coração não me é estranho.